DT-11,18.26-28.32
Salmo – 30(31)
Rm 3,21-25a.28
Mt-7,21-27
É precioso e gostoso o texto do livro do Deuteronômio, referindo-se à benção e à maldição. A comunidade de Israel e hoje a comunidade cristã têm, diante de si, o bem e o mal, a vida e a morte. Aí está o discurso de Moisés, já idoso, fundamento da aliança. Deus nos fez livres e nos quer livres, mas torce para que nossas escolhas não sejam uma ruína. A benção significa vida, posse da terra, fecundidade do solo, bem-estar, felicidade... Maldição é seu oposto, caracterizada pela perda da terra e suas consequências. A bênção é resultado dos mandamentos incutidos e inculcados. A maldição decorre da desobediência aos mandamentos do Senhor e da consequente adesão aos ídolos. Paulo não conhecia os destinatários desta Carta aos Romanos, nela escreve sobre os fundamentos da vida cristã. Ela é por isso chamada de constituição do povo de Deus. A fé em Deus por meio do Filho é, portanto, nossa salvação, sem excluir ninguém. No Evangelho deste domingo,
Jesus conclui o Sermão da Montanha, apontando a condição indispensável para quem deseja fazer parte do Reino: “Cumprir a vontade do Pai”. Não basta afirmar a pertença ao Senhor só por palavras. Ninguém dá crédito à confissão de fé que se traduz num amontoado de palavras ou de belos conceitos. A fé coerente e verdadeira de quem faz a vontade de Deus é indicada por Jesus por meio de duas casas: uma construída solidamente sobre o terreno firme e outra edificada sobre areia. Nessa comparação, Jesus revela o autêntico e o falso discípulo. O primeiro entra no Reino e o outro é excluído. O manifesto de Jesus no Sermão da Montanha descreve concretamente em que consiste a vontade do Pai. São as obras concretas de amor ao necessitado que definem os critérios para se entrar no reino. Não levar em conta esse critério é construir sobre areia. Quem cumpre o ensinamento torna-se pessoa sábia em palavra e ação, firmada sobre a rocha. “Aquele dia” refere-se ao fim dos tempos, o momento de prestar contas. O Senhor propõe que edifiquemos a casa de nossa vida “sobre a rocha”, ouvindo e praticando a Palavra, fazendo a vontade do Pai. Percebemos que temos facilidade de clamar “Senhor, Senhor”, damos solenidade às palavras bonitas e piedosas, mas a nossa prática cristã é pequena ou vazia. Vivemos tantas vezes nossa fé de forma festiva e sentimentalista. Cantamos aleluias e muitos louvores, mas passamos longe dos compromissos
comunitários e nos excluímos da solidariedade com os pobres. Tantas vezes falamos bonito sobre a ajuda aos necessitados, mas depois não nos integramos em atividades de solidariedade organizadas pela comunidade. Somos mestres da pregação na justiça, mas, no dia a dia, não valorizamos as pessoas, tratamos mal os empregados, não somos educados e responsáveis no trânsito. Sabemos muito bem que, para ser discípulo de Jesus, não é suficiente proferir palavras bonitas de adesão ao Senhor, mas é preciso esforçar-se para cumprir a vontade de Deus e viver de acordo com os valores propostos por Jesus nas bem-aventuranças. “Só entrará nos céus aquele que põe em prática a vontade de meu Pai”. Jesus é modelo e servidor da vontade do Pai”. Por isso, ele afirma: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou. (Jo 4,34) “Pai não se faça a minha vontade, mas a tua”. (Lc 22,42) Para cumprir a vontade do Pai temos que ir às fontes da Palavra de Jesus e
transformá-la em centro da vida cristã, núcleo inspirador de nosso projeto de vida pessoal e comunitária. Para sermos acolhidos por Deus em seu Reino, precisamos agir. Ele prefere construtores mais do que indivíduos que se limitam a dar palpites. O edifício construído sobre a areia é falso e perigoso, apesar de ser grandioso e imponente. Não suportará as adversidades do tempo. Construir a casa sobre a areia é rejeitar a proposta de Jesus, é optar pela autossuficiência, fundando a “casa” sobre os valores passageiros do lucro fácil, do poder, da fama, da glória, da mentira, da injustiça e da violência. Construir sobre a rocha, sobre Cristo e sua Palavra, é “viver e agir de acordo com a justiça do Reino, apresentado no Sermão da Montanha”. Ter construído a casa (Cristo) significa também poder contar com sua força nos momentos de dificuldades (as tempestades). A fé, vivida no cotidiano e em meio às diferentes realidades sociais, deve gerar modelos alternativos de vida para a sociedade atual.
CLAUDIOPARPINELLI@GLOBO.COM
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